EDITORIAL
Bom dia!
Bem-vindo(a) à Enclave #138, a newsletter com saudades da primeira fase da Copa do Mundo. Hoje tratamos de um disco muito querido para o editor.
Antes disso, um recado aos amigos de São Paulo e adjacências:
Neste sábado (18), a partir das 14h30, Daniel Zanella, editor e fundador do RelevO, fará um bate-papo na UGRA PRESS (Rua Augusta, 1371, Loja 16), no coração da capital paulista, pra falar de Jornalismo independente, entre outras fantasias incompreensíveis.
HIPERTEXTO
Este calor nuclear
Homens, eu vos amei. Vigiai! — Julius Fucik
Lembro exatamente onde eu estava na primeira vez que ouvi Deceit (1981), de This Heat (…). Lembro exatamente como me senti — e, mais estranho, lembro exatamente a descrição de como me senti. Como se tivesse anotado e relido, mas sem tê-lo feito. Talvez porque o álbum tenha imediatamente me chocado à sua maneira, e eu logo tratei de me esforçar para por em palavras aquele primeiro contato.
Era 2013 ou 2014, acredito eu. Estava em casa (à época, a dos meus pais), mais precisamente na sala (incomum). Usava um laptop, um vermelho (com adesivo do Defenestrando – bons tempos!). Era noite. Dispunha de fones de ouvido. Motivado pela leitura de Rip It Up and Start Again (2005), de Simon Reynolds, apaguei as luzes (incomum também) e dei play.
Foi o mais próximo que senti de medo ao escutar um disco. Aquele horror cósmico, sensação de desamparo existencial. Mas não o de um monstro lovecraftiano, e sim algo mais… humano? A sensação – e a descrição (lamento pela limitação das minhas ferramentas) – era a de cruzar uma ponte no breu, sem saber o que havia em frente e embaixo.
Era isso. Um breu absoluto, uma ponte, eu atravessando sozinho. Deceit me formou essa imagem, e eu nunca tinha enxergado algo similar, que dirá com um disco. Também não me lembro de atravessar uma ponte à noite, no breu, muito menos sem saber o que havia em frente; muito menos sem saber o que havia embaixo. Enfim, a arte.
E Deceit é arte de altíssimo nível. Engenhosidade pura, a aplicação de um conceito vivo a despeito de qualquer limitação técnica/estrutural. O famoso “tem verdade”. O álbum me marcou mais que outros tantos que me agradam mais; que ouço ou ouvi muito mais. Deceit foi um marco e nunca deixou de sê-lo; uma espécie de assombração para a qual retorno esporadicamente. Não é o resultado mais melódico, nem o mais lírico, nem o mais produzido, nem o mais texturizado1.
A capa ilustra esse terror maravilhosamente.
E que terror afinal movia o calor? This Heat era um trio composto de três multi-instrumentistas, mas, principalmente, três almas criativas. Do que me lembro (e posso estar enganado), Gareth Williams (baixo/voz) era a lomocotiva conceitual do grupo. Um texto de The Quietus (sobre Flaming Tunes, o outro projeto de Williams) reforça a ideia:
“Embora seja difícil atribuir qualidades específicas a músicos de um trio tão colaborativo e experimental quanto o This Heat, tudo indica que Gareth Williams era o curinga do grupo. Justamente o elemento caótico que Charles Hayward e Charles Bullen — dois egressos do prog rock desiludidos com o gênero — precisavam, ele parecia ser uma mistura exata de Brian Eno e Teo Macero, explorando o acaso e a ingenuidade para depois emendar os resultados, dando uma vida nova e misteriosa ao estúdio. Os sons encontrados, as percussões de sucata e os instrumentos de brinquedo de Williams trouxeram uma ludicidade muito necessária à sobrecarga apocalíptica da banda, enraizando-a nas fraquezas humanas e sugerindo que há vida em meio às ruínas.”
O primeiro disco do grupo (autointitulado, 1979) é abstrato. Excessivamente abstrato para meu paladar — aquilo que às vezes chamam (não eu!) de “interessante” ou, pior ainda, “necessário”, mas que podemos fechar em “experimental”. Há ótimas ideias, recursos interessantes (rá!); tem dor, inventividade, engenhosidade (principalmente ‘24 Track Loop’, essa pedrada aqui, a mais marcante2).
Deceit, o segundo, não é exatamente palatável, mas, digamos, consegue se comunicar um pouco mais com ambientes alheios a jovens efervescentes tentando quebrar a música. Gravado num frigorífico desativado, é um produto do pós-punk e, principalmente, da Guerra Fria3 elevado ao volume 11 (up to eleven). Conta-se – isto é, os próprios integrantes relataram – que eles estavam aterrorizados com a possibilidade de uma guerra nuclear. A questão é que o disco consegue traduzir isso.
Portanto, trata-se de um álbum altamente político, mas não tipicamente político. Temáticas políticas podem se centrar muito em letras (às vezes, inclusive, utilizando sua inambiguidade como muleta) e/ou então criar qualquer coisa do ponto de vista técnico (o que tudo bem, afinal *posicionamento*). Não é o caso de This Heat/Deceit, lançado pela Rough Trade Records, que soa como o apocalipse nuclear. A Waste Land de T. S. Eliot4; um Cântico para Leibowitz; o deserto de Mad Max; Fallout. O horror (o horror, o horror) de Conrad.
Quarenta e cinco anos depois, afinal, há motivos para este coração das trevas permanecer tão aterrorizante quanto atual (…outro adjetivo maldito). Tão atemporal. Deceit ainda tem o som do futuro. Analógico, fragmentado, caótico. O ruído estático numa sinfonia de detritos.
E este calor começa com a hipnose de ‘Sleep’, seguido pelo pesadelo brilhante de ‘Paper Hats’. Você pode ouvir Deceit aqui mesmo (ou, se preferir, no Spotify):
Talvez você também sentirá o horror, o medo e a travessia no escuro. Talvez você se lembrará – ou já se lembre – da primeira vez em que escutou Deceit. Talvez nós todos explodamos em breve (não com um suspiro, mas com uma explosão mesmo), e a obra de This Heat terá apenas reforçado como somos realmente muito ocos.
Bônus 1: entrevista de Simon Reynolds com Charles Hayward. “Charles Bullen e eu colecionávamos pilhas de instrumentos quebrados. Nós conseguíamos pianos de brinquedo quebrados, bonecas falantes que funcionavam pela metade. E estávamos fazendo sampling muito antes de sua existência real.”
Bônus 2: This Heat acabou porque Gareth Williams decidiu ir à Índia estudar a dança Kathakali. Hayward foi adiante com a Camberwell Now e tocou em outros (vários) projetos.
Bônus 3: ‘Nothing on’, dilacerante e tenra música de Gareth Williams não lançada oficialmente. Ele também formou o Flaming Tunes com Mary Currie (não aquela). Aqui um cover na voz da própria Currie. Williams morreu de câncer em 2001.
BAÚ
O Que Diz A Morte
Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...
Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -
Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,
É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
Antero de Quental, 1885.
Texturizado? O que isso quer dizer? Não sei; Kraftwerk é melódico e texturizado. E produzido, claro; Jobim também. Este autor se esforçou bastante para não pensar e, consequentemente, conseguir publicar.
“A peça central do álbum de estreia do This Heat, ‘24 Track Loop’, é uma faixa pioneira no uso de loops de fita para formar a base de uma música, utilizando essencialmente fita analógica de duas polegadas como um dispositivo de amostragem primitivo. A atmosfera sombria e gélida da faixa a coloca na mesma categoria dos artistas pós-punk e industriais da época, mas há também algo de muito estranho nela. É quase como uma abordagem pós-punk do Miles Davis da era dos anos 70, que também usava loops de fita e métodos de recortar e colar para reconstruir novos grooves. Tudo o que se precisava saber sobre os métodos estranhos e não convencionais usados pelo This Heat podia ser encontrado em ‘24 Track Loop’, uma faixa que é tanto uma curiosidade quanto uma revelação. No entanto, é também a peça musical mais acessível do álbum de estreia autointitulado do grupo, lançado em 1979, que justapunha canções totalmente estruturadas com longos períodos de improvisação.” — Treble, 2016.
Não confundir com “Guerra Frita: a balada que uniu o mundo”.
Eliot apresenta a ‘Morte pela água’, seção mais curta de seu poema. This Heat nos oferece ‘A new kind of water’ (Um novo tipo de água), já um “bubble bath rain” (chuva de banho de espuma/ácida) e um “acrid stench” (odor acre), cconsequência do progresso material cego.




