Seu pai morto será um anúncio na sua geladeira
Enclave #136: claaaro que não; isso nunca vai acontecer! Repent, for the end is nigh. Quatro mil semanas.
EDITORIAL
Bom dia!
Bem-vindo(a) à Enclave #136, a newsletter que vaia pé. Como? Ah, vai a pé. Isso. A newsletter que vai a pé.
HIPERTEXTO
Em breve, o fantasma de seu pai anunciará promoções de Black Friday na sua geladeira

Já comentamos por aqui que anúncios são um dos maiores propulsores da ação humana. Onde há uma pessoa haverá um anúncio: no transporte público, no elevador, em Marte (aguardem).
Com o digital overlay, já temos até anúncios inseridos artificialmente para poluir cada vez mais qualquer resquício da sua tela em qualquer resquício do seu entretenimento. Ou, no caso, para oferecer uma experiência customizada.
Anúncios representam 98% das receitas da Meta (Facebook) e 76% da Alphabet (Google). Calcule o valor colossal atribuído a essas empresas (US$ 1,5 e US$ 3,5 trilhões, respectivamente) e fica fácil entender como esse recurso se tornou praticamente a base da economia digital1. E assim você não escapa de anúncios no transporte público, no elevador ou na esteira da academia. Telas são baratas, e onde há humanos há telas, e onde há telas há anúncios. Alguém está pagando para aparecer na tela do elevador com a esperança de que aquilo traga algum retorno a seu negócio.
Por sua vez, geladeiras – algumas geladeiras – passaram a ter telas. Não geladeiras quaisquer. Geladeiras smart, que fazem muito mais que… refrigerar2. Consideremos por um minuto que, com o tempo, isso se torne um padrão da indústria. Comprar uma geladeira, instalar um app que integre seu cadastro à geladeira (já consigo me ver suando frio com uma autenticação de dois fatores para associar a geladeira ao meu smartphone). Receber notificações na geladeira. Isso lhe parece realmente inverossímil?
Pois bem, de todo modo, haverá telas. Quem sabe as próprias fabricantes passem a empurrar geladeiras smart, porque afinal telas oferecem oportunidades, e por que deixar de aumentar um pouquinho a receita com uma linha paralela de – tão baratos, tão práticos! – anúncios??? Estou obviamente confabulando; nada é informação — exceto pela confirmação da Samsung de que, bem, hehehe, sabe como é, né, não tá fácil pra ninguém…
Anúncios na geladeira. Este é o primeiro fato deste enclave.
Anúncios. Na geladeira. É realmente inverossímil um futuro em que sua geladeira parte de um plano gratuito que não congela, e para usufruir do freezer você precisa assinar o plano pago (com e sem anúncios, este último um pouquinho mais caro…)? Espremidos entre emerdação e gamificação, estamos realmente tão longe disso?

Pois bem, há um segundo fato. Talvez vocês já tenham visto o mentecapto responsável por isto aqui, um app que permite… manter vivo o avatar de um ente querido. As comparações Black Mirror são tão óbvias que nem merecem detalhamento maior3. A ideia é grotesca (por motivos que, a meu ver, também dispensam um detalhamento maior) e, imagino eu, não vá ter grande adesão. Por ora. Até que alguém – quem sabe, quem sabe – amarre melhor as oportunidades.
Talvez alguém que vale trilhões (asteriscos) e é capaz de mover um ecossistema inteiro. Talvez oportunidades como anúncios.
Possivelmente embebido num pessimismo exagerado, pergunto outra vez: é tão inverossímil assim imaginar o avatar da sua avó lembrando-lhe sutilmente que aquela máquina de lavar que você andou olhando (o avatar da sua avó está integrado ao histórico do seu navegador) acabou de entrar em promoção? Na versão gratuita, claro. Pagando um pouco mais, você tem acesso à personalidade completa da sua avó. Uma versão que não sugere apostar na Betano ou vestir Insider. Uma versão que permite addons como agregadores de preços ou ferramentas de gestão (a disciplina da minha avó mantida viva num Kanban).
No lar do futuro, é completamente inverossímil integrar o app da sua geladeira ao melhor app de avatares do mercado? Tela sobre tela. Tudo maravilhosamente conectado (com autenticação em dois fatores). É mesmo improvável escutar a voz de seu pai morto emergindo da geladeira a sussurrar: “Filho, o frango está acabando. Já experimentou o sassami Copacol?”, seguida de um aviso — PARA REDUZIR ANÚNCIOS E CONGELAR CARNE, ASSINE O PLANO PREMIUM?
Nada disso vai acontecer.
…
Certo?
Se você gostou deste texto, talvez se interesse por alguns outros lamúrios da Enclave:
Anúncios (Enclave #122).
Apostas (Enclave #116).
Enshittification e gamificação (Enclave #124).
Deprimidos por telas (Enclave #128).
Ninguém sabe exatamente o que está fazendo (Enclave #134)
BAÚ
Leva simplesmente o tempo que leva
As pessoas reclamam que não têm mais “tempo para ler”, mas, na realidade, como assinalou o romancista Tim Parks, poucas vezes elas não podem, literalmente, alocar uma meia hora livre no decurso de um dia. O que elas querem dizer é que, quando encontram tempo, e o usam para tentar ler, descobrem que estão impacientes demais para se dedicar à tarefa. “Não é simplesmente que essa tarefa é interrompida”, escreve Parks. “É que existe efetivamente uma inclinação à interrupção”. Não é tanto que estejamos ocupados demais, ou dispersos demais, mas sim que não estamos querendo aceitar a verdade de que a leitura é um tipo de atividade que opera muito de acordo com seu próprio cronograma. Você não é capaz de apressá-la muito sem que a experiência comece a perder seu sentido; ela recusa-se a concordar, pode-se dizer, com nosso desejo de exercer controle sobre como o tempo se desenrola. Em outras palavras, e de acordo com muitos mais aspectos da realidade do que aqueles que nos sentimos confortáveis para reconhecer, ler alguma coisa de modo adequado leva simplesmente o tempo que leva.
Oliver Burkeman, Quatro mil semanas: Gestão de tempo para mortais (Ed. Objetiva, 2022).
Notícia deste mês: “Documentos internos da empresa mostram que a Meta projetou internamente, no final do ano passado, que obteria cerca de 10% de sua receita anual total – ou US$ 16 bilhões – com a veiculação de anúncios de golpes e produtos proibidos” Forbes.
Eu, que do fundo do coração não me considero um ludita em nenhum aspecto, resisto muito à ideia de geladeiras e máquinas de lavar smart. Porque, como acabei de apontar (mas vale o reforço), a principal função de uma geladeira é resfriar; e a principal função de uma máquina de lavar, lavar. É óbvio, soa estúpido, mas… aqui estamos. Tudo, afinal, há de ser otimizado.


Relendo Jamil Snege, me recordo da sua escrita irônica e mordaz, pois o texto expõe os limites invasivos da publicidade digital em nossa vida cotidiana. A imagem do "fantasma de seu pai anunciando promoções de Black Friday na geladeira" funciona como metáfora potente para o panorama atual, onde a presença da propaganda se torna quase onipresente, perpassando espaços antes considerados íntimos e preservados, como a própria residência e até objetos domésticos essenciais.
A crítica que faço aqui, ressalta a mercantilização extrema do cotidiano, simbolizada pelas geladeiras "smart" que deixam de ser meros aparelhos para se converterem em plataformas adicionais de publicidade e vigilância. Esse deslocamento dos anúncios para espaços privados destaca as tensões sociais em torno da intrusão da lógica de mercado, mostrando como tecnologias inicialmente associadas ao conforto se transformam em instrumentos sofisticados de controle e consumo. A referência ao sistema de "planos pagos" e a segmentação entre versões com ou sem anúncios aproxima o texto das discussões sobre a precarização das relações sociais mediadas pela economia digital. Além disso, o texto vem explorar a dimensão ética e afetiva da tecnologia digital, com o exemplo do "avatar" de um ente querido "vivo" integrando-se ao consumo, numa provocação ao imaginário distópico à la Black Mirror. Essa figura reflete a inquietação social sobre a instrumentalização da memória e das emoções para fins comerciais, levantando inquietações sobre autenticidade, luto e a mercantilização da existência humana.
Em suma, analiso aqui o texto sob o olhar da crítica literária social que expõe as contradições do capitalismo digital, o empobrecimento da experiência humana diante da hipercomercialização e a invasão da publicidade que desfigura a intimidade, que atua como alerta e convite à reflexão crítica sobre o preço que se paga pela conveniência tecnológica e a aparente onipresença dos mecanismos de consumo, propondo uma leitura que transcende a simples descrição e se ancora em uma perspectiva ética e socialmente engajada.
Essa crítica dialoga com produções literárias e culturais que problematizam o impacto da publicidade e da tecnologia no comportamento humano, reforçando a importância de cultivar consciência e resistência crítica frente à saturação publicitária e à mercantilização das relações afetivas, isso sem falar do "O SHOW DO EU" - A intimidade como espetáculo, de Paula Sibilia. SIBILIA, 2016.
[por Rubens Gomes Corrêa: Nascido em Mandaguaçu, Paraná. Reside em Curitiba desde 1982. Doutorando em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade, Mestre em Assistência pela UFPR. Especialista em Didática do Ensino Superior; MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior; Professor no Instituto Federal do Paraná. Possui 26 livros publicados].