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Relendo Jamil Snege, me recordo da sua escrita irônica e mordaz, pois o texto expõe os limites invasivos da publicidade digital em nossa vida cotidiana. A imagem do "fantasma de seu pai anunciando promoções de Black Friday na geladeira" funciona como metáfora potente para o panorama atual, onde a presença da propaganda se torna quase onipresente, perpassando espaços antes considerados íntimos e preservados, como a própria residência e até objetos domésticos essenciais.

A crítica que faço aqui, ressalta a mercantilização extrema do cotidiano, simbolizada pelas geladeiras "smart" que deixam de ser meros aparelhos para se converterem em plataformas adicionais de publicidade e vigilância. Esse deslocamento dos anúncios para espaços privados destaca as tensões sociais em torno da intrusão da lógica de mercado, mostrando como tecnologias inicialmente associadas ao conforto se transformam em instrumentos sofisticados de controle e consumo. A referência ao sistema de "planos pagos" e a segmentação entre versões com ou sem anúncios aproxima o texto das discussões sobre a precarização das relações sociais mediadas pela economia digital. Além disso, o texto vem explorar a dimensão ética e afetiva da tecnologia digital, com o exemplo do "avatar" de um ente querido "vivo" integrando-se ao consumo, numa provocação ao imaginário distópico à la Black Mirror. Essa figura reflete a inquietação social sobre a instrumentalização da memória e das emoções para fins comerciais, levantando inquietações sobre autenticidade, luto e a mercantilização da existência humana.

Em suma, analiso aqui o texto sob o olhar da crítica literária social que expõe as contradições do capitalismo digital, o empobrecimento da experiência humana diante da hipercomercialização e a invasão da publicidade que desfigura a intimidade, que atua como alerta e convite à reflexão crítica sobre o preço que se paga pela conveniência tecnológica e a aparente onipresença dos mecanismos de consumo, propondo uma leitura que transcende a simples descrição e se ancora em uma perspectiva ética e socialmente engajada.

Essa crítica dialoga com produções literárias e culturais que problematizam o impacto da publicidade e da tecnologia no comportamento humano, reforçando a importância de cultivar consciência e resistência crítica frente à saturação publicitária e à mercantilização das relações afetivas, isso sem falar do "O SHOW DO EU" - A intimidade como espetáculo, de Paula Sibilia. SIBILIA, 2016.

[por Rubens Gomes Corrêa: Nascido em Mandaguaçu, Paraná. Reside em Curitiba desde 1982. Doutorando em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade, Mestre em Assistência pela UFPR. Especialista em Didática do Ensino Superior; MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior; Professor no Instituto Federal do Paraná. Possui 26 livros publicados].

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